Entrevistador RedesFito: Marina, qual é a sua região de atuação?
Marina: A minha região de trabalho eu moro em Barra do Piraí, interior do Rio de Janeiro e atuo em todo o Centro Sul Fluminense, nas regiões no entorno, prestando assistência técnica e gerencial. Eu tenho uma empresa de assistência técnica, sou instrutora do Senar também técnica de campo e trabalho nessas propriedades, aqui no entorno da minha região.
Entrevistador RedesFito: Como é sua atuação na área de plantas medicinais e fitoprodutos?
Marina: No caso, vocês viram que eu sou formada em Agronomia e eu sempre tive grande interesse pelas plantas, seja pelas suas características medicinais, alimentares, ecológicas e, ao longo da minha trajetória profissional, atuando com assistência técnica e gerencial junto a produtores rurais, eu passei a identificar, a coletar e multiplicar espécies medicinais encontradas no território onde eu atuo, sempre valorizando o conhecimento tradicional associado a essas espécies. Então, nesse processo de prospecção, eu busco como cada planta é utilizada pelas comunidades, seus nomes populares, formas tradicionais de uso e o potencial produtivo, porque, assim, quando eu coleto, eu levo para a multiplicação e é um trabalho todo para perceber se elas se adaptam mais a local mais ensolarado ou precisam de mais sombra. Nós trabalhamos com bioinsumos, que toda a nossa produção é orgânica, então, todo um trabalho é feito com essas espécies, visando entender um pouco melhor e transmitir esse conhecimento para a comunidade que nos forneceu as mudas. Então, nesse processo, eu vou buscando cada vez mais esse conhecimento e, atualmente, como presidente da Amarsul, nós desenvolvemos ações voltadas ao cultivo, ao beneficiamento, comercialização e valorização dessas espécies medicinais, seja na venda em feiras, seja pelos editais da merenda escolar. Nós também vendemos para alimentação escolar, e essas plantas medicinais estão na nossa vida tanto na geração de renda quanto no cotidiano das famílias, aumentando a autonomia dessas famílias, fortalecendo a saúde delas e também a manutenção na tradição de uso dessas plantas. Então, a gente não deixa esse conhecimento ser esquecido. Meu trabalho é basicamente esse de resgate mesmo e de valorização dessas plantas medicinais.
Entrevistador RedesFito: Na sua visão, qual a importância desse trabalho que você realiza nesta área?
Marina: Eu acredito que a grande importância da minha atuação está na capacidade de integrar diferentes setores estratégicos em torno de um objetivo comum. Então, a minha trajetória profissional me permite dialogar tanto com a base produtiva, os agricultores, como com as instituições de pesquisa, organizações da sociedade civil, poder público e empresariado. Eu também tenho formação em gestão pública e experiência no setor público, o que facilita muito a interlocução institucional e a construção de parcerias. Na minha gestão na Amarsul, nós formalizamos um acordo de cooperação técnica com o Instituto Federal Campus Pinheiral, para que as agricultoras pudessem utilizar a cozinha certificada para beneficiamento dos produtos, e 5% de tudo que nós beneficiamos lá nós fornecemos para a merenda escolar. Além de fornecermos também estágios para os alunos e participação em comum em projetos, a gente também, em projetos socioambientais nós trabalhamos juntos. Eu atuei por quase 10 anos como professora do curso de engenharia ambiental. Então, isso também me aproxima da academia e da produção científica e, ao mesmo tempo, eu estou agora como orientadora do programa ALI Rural do Sebrae, que leva gestão e inovação para o pequeno agricultor. Eu sou instrutora e conteudista do Senar. Eu crio cursos para educação à distância, crio cursos presenciais. Sou tutora desses cursos também. Eu sou produtora rural e técnica de extensão, então eu conheço muito de perto a realidade de quem produz. Eu sei bem quais são os seus desafios e as suas potencialidades. Isso me permite transformar demandas concretas desse grupo em projetos, em capacitações, em acordos de cooperação técnica que beneficiam os territórios. Eu acho que minha atuação, nesse sentido, é bem determinante, até porque a gente tem obtido muito sucesso nesse sentido, e estímulo também as agricultoras a buscar mais capacitação. Isso é muito importante para que a gente evolua, seja lá no que for que a gente estiver trabalhando.
Entrevistador RedesFito: Qual Núcleo você atua nas RedesFito? E há quanto tempo participa?
Marina: Eu participo do Núcleo Ipê desde a sua formação, em 2019. Eu, ainda como professora universitária, participei de um grupo de trabalho das RedesFito e ali eu soube que o Jefferson estava chegando para coordenar as redes e que ele vinha com uma proposta de reativar os núcleos, de colocar núcleos em cada local desse país, e ele tem conseguido isso com arte. Ele prontamente falou que poderia vir um núcleo para Vassouras, veio para cá, explicou para um público de quase 40 pessoas, e essas pessoas viriam a se tornar parte desse núcleo. Ele veio explicar como funcionava, trouxe informações sobre essa rede em prol do desenvolvimento de medicamentos a partir da biodiversidade. Eu faço parte do grupo gestor do núcleo, contribuindo com ações voltadas ao fortalecimento das cadeias produtivas da biodiversidade, especialmente relacionadas às plantas medicinais, às plantas não convencionais e à agricultura familiar.
Entrevistador RedesFito: Que ações ou iniciativas do núcleo você destacaria?
Marina: Eu destaco especialmente as ações de capacitação e fortalecimento comunitário promovidas pelo núcleo, nós tivemos várias, tivemos oficinas de boas práticas de produção e beneficiamento de plantas alimentares e medicinais. Nós tivemos também a oficina de produção de sabonetes terapêuticos. Isso nós fizemos até nos laboratórios de química do Instituto Federal, a partir desse convênio, nesse acordo que nós temos, o curso de cultivo de plantas medicinais, de produção de alimentos minimamente processados, curso e manutenção de motosserra e de roçadeira também, várias atividades voltadas ao resgate dos conhecimentos tradicionais relacionados ao uso popular das plantas medicinais. Inclusive, em duas propriedades das associadas, nós estamos fazendo mini horto mesmo, de onde a gente traz as espécies e estamos multiplicando, e é até uma atividade que nós colocamos nos nossos projetos, que nós fornecemos uma área de experimentação para pesquisadores também e, como nós trabalhamos com agricultura orgânica, dá para fazer muitos experimentos, ainda temos os alunos também do estágio, então é um trabalho que a gente vem desenvolvendo que eu acho bem importante.
Eu também considero muito relevante o apoio das RedesFito aos núcleos para participação nos projetos socioambientais. Um exemplo bem importante foi a conquista da Amarsul pelos recursos, a obtenção dos recursos do edital do Fundo Casa Teias da Sociobiodiversidade, esse fundo é da Caixa Econômica. Nós vencemos a primeira chamada de 25, então nós aparelhamos toda nossa associação com microtrator, carreta, um encanteirador, vários implementos para trabalho, nós propusemos o plantio de meio hectare de sistemas agroflorestais com plantas medicinais e espécies frutíferas da Mata Atlântica, e nós ultrapassamos muito esse meio hectare, nós chegamos a 5 hectares já. Então isso está sendo agora, no final do projeto, nós estamos entregando as contas e isso foi um plus para a gente e tudo isso demonstra como a articulação, o trabalho em rede, gera oportunidades concretas para os territórios. Então, essas ações do núcleo e da rede eu acho fundamentais para o desenvolvimento territorial e o desenvolvimento dessas comunidades que trabalham com a produção de alimentos.
Entrevistador RedesFito: Marina, além da sua atuação profissional, quais são as suas motivações pessoais?
Marina: Eu me motivo muito pela busca da dignidade da vida de todos os seres desse planeta, sejam pessoas, sejam plantas, sejam bactérias, vírus, seja lá o que for. Hoje em dia, a gente está descobrindo que a microbiota do solo é fundamental para a nossa vida e, sem ela, nós não existimos. Então, eu acho que todos devem ter uma vida equilibrada. É isso que eu busco.
Eu acredito que o desenvolvimento tem que estar atrelado à justiça social e ao equilíbrio ambiental, senão não tem como nós produzirmos sustentavelmente. Então, o que me motiva, o que me leva a buscar esse trabalho, é exatamente a busca pela conservação, pela preservação da natureza. É isso que eu busco fundamentalmente no meu trabalho.
Entrevistador RedesFito: Enquanto pessoa você sente uma realização da sua trajetória? Você está conseguindo alcançar os seus objetivos?
Marina: Olha, eu estou muito feliz com a minha vida, muito, muito, muito, com os resultados obtidos, com o que eu pude atrair para perto de mim. Eu vivo no meio da natureza mesmo, eu transformei minha casa em grande sistema agroflorestal. Eu, apesar de ter quase toda a casa impermeabilizada, produzo frutas, alimentos, ontem mesmo eu estava comendo fruta-do-conde, laranja-lima, acerola, tudo produzido em vaso. Então, eu acho que isso é uma coisa que me deixa muito feliz, e estar alcançando também projetos sociais que beneficiam uma grande classe, que é a dos produtores, e nós ainda somos mulheres produtoras. Então, esse fortalecimento da mulher no campo é tudo isso que me deixa muito satisfeita com o meu trabalho. Eu sempre fui apaixonada pela agronomia desde os cinco anos de idade eu planto, então eu estou totalmente realizada com o que eu faço, totalmente.
Entrevistador RedesFito: Como você deseja ver no futuro o desenvolvimento nesta área de plantas medicinais e fitoterápicos?
Marina: Bom, eu espero muitíssimo que essa área seja cada vez mais fortalecida, seja estruturada, e a gente já vem vendo passos nesse sentido, com leis, com normas que vêm se modificando e sendo reconhecidas como estratégicas para o Brasil. Então, a gente tem uma das maiores biodiversidades, senão a maior biodiversidade, e nós temos muitos conhecimentos tradicionais ligados a esse patrimônio genético, que precisa ser tratado com respeito, com inclusão social, com ciência mesmo, para que a gente possa obter resultados satisfatórios para todos. Isso que eu busco mesmo.
Eu espero, no futuro, que a agricultura, comunidades tradicionais, universidades e setor produtivo trabalhem em conjunto em prol desse desenvolvimento, e acredito que os fitoprodutos, as plantas medicinais, possam, de fato, contribuir muito para o modelo de desenvolvimento sustentável, humano e conectado também às riquezas do nosso país, do nosso território.
Marina, muito obrigada por compartilhar a sua trajetória e pela disponibilidade. A sua atuação fortalece e inspira as RedesFito em diferentes territórios. A gente agradece a sua participação.
Assista à entrevista completa no canal das RedesFito no YouTube
A entrevista foi realizada por: Caio Assis, Levi Mateus Souto Teixeira, Luana Oliveira e Vitor Cardoso.
As RedesFito entrevistaram Marina Constant Maciel, engenheira agrônoma, mestre em Ciências Ambientais, especialista em Planejamento e Gestão Ambiental e atual presidente da AMARSUL. Marina se destaca pelo seu trabalho incansável, não só no ambiente acadêmico, como na sua forte atuação no campo. Na conversa, realizada de forma online pela plataforma Teams, Marina compartilhou experiências relacionadas à sua atuação na valorização de espécies medicinais, falou sobre sua trajetória profissional e sua colaboração junto às RedesFito. O papel do conhecimento tradicional associado às plantas medicinais e os desafios para o desenvolvimento sustentável dos territórios são alguns dos pontos mais importantes dentro da realidade do trabalho de Constant com as RedesFito.